POLÍTICA

Dois anos depois, discurso de esperança de Nyusi foi atropelado pela realidade

Dois anos depois de um discurso inaugural de esperança, a primeira fase de Filipe Nyusi na Presidência moçambicana ficou marcada pelo agravamento do conflito com a Renamo, desastres naturais, crise económica e escândalo das dívidas escondidas.

Nyusi, antigo quadro dos Caminhos de Ferro de Moçambique e ex-ministro da Defesa, tomou posse a 15 de janeiro de 2015, com a promessa de que seria implacável contra a corrupção e a pobreza, numa política em que «as boas ideias não têm cor partidária» e declarando o povo seu patrão.

A Presidência de Nyusi começou com a marca da tragédia, após 75 pessoas terem morrido por consumo de uma bebida tradicional contaminada e mais de cem terem desaparecido nas cheias mais devastadoras da província da Zambézia das últimas décadas.

As enxurradas, que afetaram dezenas de milhares de pessoas e provocaram elevados prejuízos, antecederam uma seca prolongada no sul e centro do país, deixando 1,5 milhões de habitantes em insegurança alimentar.

As calamidades foram também a primeira má notícia para a economia moçambicana, que vinha registando uma média de taxas de crescimento acima dos 7% nos últimos 20 anos, e que se juntou à descida dos preços internacionais das matérias-primas de exportação, a começar pelo carvão de Tete, onde a maioria das multinacionais vendeu, reduziu ou paralisou a sua produção.

Foi também um período marcado pelo agravamento da crise política com a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), que denunciou várias tentativas para eliminar o seu líder, Afonso Dhlakama, entretanto recolhido ao seu refúgio da serra da Gorongosa.

Após os incidentes com Dhlakama e a exigência da Renamo em governar as seis províncias onde reivindica vitória nas eleições que deram a vitória a Nyusi e à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), o braço armado da oposição intensificou a sua atividade no centro e norte do país, a par de relatos de operações militares das forças do Governo.

Nos primeiros meses de 2016, as autoridades montaram colunas militares obrigatórias em três troços das principais estradas do centro de Moçambique, mas os ataques da Renamo continuaram, incluindo alvos civis, colocando fortes limitações à circulação de pessoas e bens e afugentando o investimento.

O ressurgimento da guerra levou ainda à movimentação de refugiados da província de Tete no vizinho Malaui, alegando perseguições das forças governamentais, e à criação de centros de deslocados nas regiões mais afetadas pelo conflito, e a revelação de outras violações de direitos humanos, como dezenas de corpos abandonados no mato, sem que ninguém saiba até hoje como foram lá parar.

Tornaram-se também frequentes denúncias mútuas de raptos e assassínios de dirigentes de ambas as partes, incluindo no período em que Governo e Renamo voltaram finalmente a negociar, na presença de mediação internacional, mas ainda sem resultados.

À partida para o terceiro ano de mandato, a paz permanece como um dos principais desafios de Nyusi, após Dhlakama ter declarado, no início de janeiro, uma trégua de 60 dias, para dar espaço às negociações.

Ao mesmo tempo, 2017 é um ano decisivo para a economia, que viu o crescimento arrefecer para metade dos valores históricos, a inflação subir para quase 30%, enquanto o metical entrava em queda livre face ao dólar.

Num «ano de muitas tormentas», como descreveu Nyusi, foi ainda revelada a existência de 1,4 mil milhões de dólares em dívidas contratadas a favor de empresas estatais, em 2013 e 2014 com garantias do Estado, à revelia do parlamento e dos parceiros internacionais.

A descoberta das dívidas escondidas, que se somaram ao caso semelhante e já anteriormente revelado da Ematum, levaram o Fundo Internacional (FMI) e os doadores do Orçamento do Estado a suspender os seus financiamentos, agravando as dificuldades de tesouraria do Governo.

O executivo e o FMI voltaram às negociações para a retoma do apoio, que deverá implicar pesadas medidas de austeridade, mas terão de ultrapassar as regras do próprio Fundo, que proíbem a ajuda a um país numa trajetória insustentável da dívida pública, como passou a ser o caso de Moçambique depois da revelação do escândalo.

Os doadores e o FMI têm elogiado as políticas do Governo para recuperar a economia e a confiança internacional, mas os credores recusam-se a renegociar os encargos até ao fim de uma auditoria internacional às empresas beneficiadas com as dívidas escondidas e que deverá estar finalizada em fevereiro.

Apesar das dificuldades, Nyusi declarou que o seu Governo mantém-se «firme», esperando que 2017 se traduza numa retoma, fim da guerra com a Renamo, normalização das relações com os parceiros internacionais, e ainda a confirmação dos megainvestimentos no gás natural da bacia do Rovuma e que podem relançar o país para novos ciclos crescimento acelerado.

Fonte: Lusa

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