POLÍTICA

“Filipe Nyusi é um presidente de faz de conta” diz João Pereira

Se em Agosto de 2015, o politólogo moçambicano João Pereira ainda tinha reservas, hoje o académico já não tem dúvidas: Filipe Nyusi é um presidente de faz de conta. O mesmo alerta para o risco de o engenheiro de Mueda ficar na história como aquele que levou a Frelimo para uma grande derrota eleitoral.

João Perreira acredita que a actual crise económica resultou da ganância pela acumulação primitiva da riqueza, mas é assertivo em assinalar que vai provocar rupturas profundas no seio de um partido cuja lógica esteve baseada, durante anos, numa rede clientelista de acomodação e de distribuição de recursos que, com a crise, escasseiam e como tal já não chegam para todos.

Siga a entrevista na qual, dentre várias leituras, o docente de ciência política avisa que esta é a última vez que a Renamo usa armas para atingir fins políticos. João Pereira tem acompanhado atentamente o desenrolar e as dinâmicas do país.

João Pereira tem acompanhado atentamente o desenrolar e as dinâmicas do país. Como é que caracteriza a actual situação de Moçambique?

É verdade que existem sinais positivos em relação ao processo de negociação da paz para acabar com a tensão político-militar, mas ainda faltam muitas coisas determinantes. Muitas vezes, a estratégia é de acomodação das elites políticas deste país.

É verdade que é um factor determinante para a estabilização política, mas acomodar as elites da Renamo, do MDM, da Frelimo, sem acomodar as demandas da sociedade, não cria uma sociedade estável. E, neste momento de crise profunda, como será possível acomodar, por exemplo, as elites da Renamo, sem acomodar a base social da Renamo.

Construímos um Estado e um sistema político que alimenta simplesmente as elites políticas, em termos de acesso a recursos de poder, financeiros, mas esquecemos de construir o país, a partir de instituições credíveis que respondem àquilo que são as demandas do cidadão.

Oito meses depois de Filipe Nyusi assumir a presidência da República, João Pereira concedeu uma entrevista ao SAVANA na qual dizia que ou Nyusi faz história ou será uma desilusão. Um ano e meio depois, vê história ou está desiludido?

É uma mistura de duas coisas. Primeiro um sentimento de que o presidente Nyusi está a tentar fazer algo e não está a conseguir e há um sentimento de desilusão porque eu esperava que o presidente Nyusi conseguisse, até certo ponto, fazer algumas rupturas a nível do próprio partido, mas parece que as forças de resistência internas são superiores à sua própria vontade e tenho receio que essas forças, que têm poder até a nível do próprio Estado, vençam aquilo que eram as grandes aspirações do próprio presidente. Mas se ele não conseguir fazer essa ruptura, este ano, praticamente vai ser a maior desilusão do povo moçambicano.

Porquê?

É que, a partir do próximo ano, ele vai tentar querer ganhar confiança da estrutura do partido para poder ser reeleito como candidato para as próximas eleições. Mas o presidente Nyusi corre um grande perigo se ele não faz essa ruptura e não consegue dar credibilidade à própria Frelimo e as próprias instituições: é de perder as eleições, ficar na história como aquele que levou a Frelimo a uma grande derrota eleitoral a nível das autarquias e, por outro lado, pôr em risco até a própria sustentabilidade do partido.

Que saídas ele tem?

Neste momento o cenário é muito negativo para ele porque não tem recursos financeiros e, não tendo esses recursos, ele vai ficar preso às redes clientelistas estabelecidas pelo presidente Guebuza que distribuiu mais recursos no partido e no Estado. Se ele quiser fazer mais outro tipo de reformas, vai gerar inimigos que já são tantos ao nível da própria Frelimo.

Que inimigos?

Política não só gera amigos, mas também gera inimigos, se você não traz a eles dentro do sistema, do clube e das alianças, se você não acomoda a eles como embaixadores, ministros e vice-ministros. Neste momento em que ele tem de cortar as despesas públicas, por exemplo, vai ter de fazer rupturas com algumas dessas alianças, vai ter de acabar com algumas unidades dentro do próprio Estado, privatizar algumas empresas públicas e, tudo isso, vai criar rupturas e descontentamento ao nível do partido Frelimo. Durante muitos anos, grande parte daquelas elites políticas da Frelimo vivia, praticamente, à custa das empresas públicas ou de acomodações a nível do próprio Estado. Então, tudo isso vai gerar conflitualidade e ele não vai ter dinheiro suficiente para financiar o partido. Ele dava indicação de que queria se distanciar do partido, mas agora ele está a recuar porque sabe que tem de ir ao partido para conseguir apoio para poder continuar a ser o futuro candidato da Frelimo. As estruturas do partido, tomando em consideração aquilo que vão ser os próximos cenários económicos, sociais e políticos do país, que todos dizem que vão ser muito difíceis, podem chegar a conclusão de que ele não é o candidato ideal do partido para as próximas eleições e logo neste Congresso (2017) partir-se para a indicação de alguém que comece, na sombra, a preparar para poder chegar a 2019 como candidato da Frelimo. Mas uma vez que o presidente Guebuza ainda exerce poder na Frelimo, e não tendo o presidente Nyusi recursos financeiros para desenvolver a sua própria rede clientelista, duvido muito que ele tenha condições suficientes para poder fazer grandes mudanças. A única coisa que ele pode fazer perante este cenário é manter a estrutura como está e não criando mais feridas dentro do partido, vivendo nesta coisa que eu chamaria de um presidente de faz de conta.

O que é um presidente de faz de conta?

É um presidente que está lá, mas não tem um punho pessoal. O que o presidente Nyusi, em oito meses, fez para se dizer que isto aqui é o punho pessoal do presidente Nyusi? O presidente Guebuza criou governação aberta, criou 7 milhões, criou tudo isso, então, o que é que o presidente Nyusi fez que diga que vai ser a sua marca. Até hoje não temos uma marca, tudo o que ele está a fazer é continuidade daquilo que Guebuza fez: governação aberta é made in Guebuza…

Confira a entrevista completa no Jornal SAVANA do dia 15 de Julho de 2016

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