POLÍTICA

Dezenas de pessoas em fuga após confrontos em Moçambique

Os confrontos registaram-se em Chicaca, 17 quilómetros a norte de Zimpinga, distrito de Gondola, onde há uma semana ocorreu um incidente com a comitiva do líder da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), que também resultou em trocas de tiros entre os militares da oposição e a as forças estatais.

“As 6:00 ouvi tiroteios e os alunos apareceram na escola. Mas ao entrar na sala ouvi novos disparos. Às 09:00 dispensei os alunos e arrumei tudo para fugir”, descreveu à Lusa a diretora de uma escola primária no interior de Chicaca, e que, tal como outras fontes, viu entrar na região cinco carros militares no principio da manhã.

Segundo Angelina João, a troca de tiros que se seguiu forçou a fuga de muitos professores e alunos, bem como de outros habitantes.

Ainda no testemunho da professora, guardas da Renamo estavam acampados nas margens do rio Mussátua desde o incidente do passado dia 25, após terem perdido as suas viaturas nos confrontos com as forças policiais e exército.

O presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, não é visto em público desde aquele dia e circulam rumores na região de que se mantém no distrito de Gondola, protegido por elementos da sua guarda.

“Depois dos tiros, a população refugiou-se nas baixas [leitos e nascentes de rios]”, descreveu por sua vez Ricardo Fernando, que também mandou a família proteger-se em riachos, enquanto guardava seus pertences num lugar onde já não se encontrava mais ninguém.

A cerca de 15 quilómetros do local dos acontecimentos de hoje, João António, um morador de Amatongas, relatou que a sua avó também fugiu dos confrontos e alojou-se na sua casa.

A mesma fonte contou que, no princípio da manhã, várias pessoas chegaram a Amatongas carregando bens e esteiras e as pessoas sem familiares na localidade foram albergadas por caridade em casas vizinhas.

O comércio, transportes públicos, escolas e hospitais de várias localidades da região estavam encerrados ao princípio da noite, quando a população que se tinha escondido nas matas começou a sair para percorrer dezenas de quilómetros a pé para se refugiar nos centros urbanos de Gondola, Inchope ou Amatongas.

Transportando habitantes igualmente em fuga, Daniel João usou o seu trator para ajudar, “com pena dos anciãos e crianças” e lamentando que “voltem a ouvir o soar das armas”.

A Lusa avistou no princípio da tarde duas viaturas carregadas de agentes da Unidade de Intervenção Rápida (UIR) seguindo para Chicaca, tendo acampado junto à escola local.

O grupo de jornalistas que tentava chegar à zona dos confrontos foi impedido por agentes da UIR de prosseguir viagem, justificando que os “homens [da Renamo] estavam perto”.

A Renamo acusou as forças de defesa e segurança de novos ataques no distrito de Gondola, para matar o líder do movimento, Afonso Dhlakama.

“Esta manhã, as tais forças combinadas, fazendo-se transportar em sete viaturas, chegaram a Chicaca, localidade de Mpindanhanga, distrito de Gondola, onde atacaram as populações locais, acusando-as de proteger o presidente Afonso Dhlakama”, afirmou, em conferência de imprensa, o porta-voz da Renamo, António Muchanga.

Estas movimentações, prosseguiu Muchanga, resultaram em confrontos com as forças da Renamo.

A polícia moçambicana responsabilizou por sua vez a Renamo pelo início dos confrontos, acusando militares da oposição, “fortemente armados”, de intimidarem a população, o que levou à fuga de habitantes em debandada.

“Dirigimo-nos ao local e fomos confrontados com tiroteios dos mesmos guerrilheiros. Não tínhamos outra alternativa senão encarar aqueles ataques e retaliar”, afirmou Belarmino Mutadiua.

Moçambique vive sob o espetro de uma nova guerra, devido às ameaças da Renamo de governar pela força nas seis províncias do centro e norte do país, onde o movimento reivindica vitória nas eleições gerais de 15 de outubro do ano passado.

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2 Comentários

  1. Andre David disse:

    Triste com os cenarios que acontecem no Pais

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